Quando falamos sobre reparação, não podemos perder de vista o que estamos a reparar. Não há números exatos, mas estima-se que quase cinco milhões de africanos foram trazidos para o Brasil como escravizados entre os séculos XVI e XIX.
O país foi o que mais escravizou humanos nas Américas e que manteve homens e mulheres negras, mesmo após a abolição da escravatura, em 1888, fruto de muito luta do nosso povo, em condições desumanas, já que alforria não veio acompanhada de acesso ao trabalho, à saúde, à educação e à moradia.
Diante da degradação, somente nossa imensa capacidade de sobrevivência foi capaz de nos manter vivos. Mas a precariedade segue até nossos dias. Bastas ver que, apesar de representar 55,5% da população brasileira, apenas 8% dos partos e pretos ocupam cargos de liderança nas empresas, segundo pesquisa divulgada em 2024 pela Indique uma Preta e a Cloo.
Nas favelas, essa mesma população representava 72,9% dos moradores, conforme apontou levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2022.
Portanto, a reparação, pagamento de uma dívida com os povos africanos retirados de sua terra e fundamentais à formação do Brasil, além de seus descendentes, está longe de acontecer. Para isso é necessário que políticas públicas em defesa da igualdade sigam a acontecer, mas não serão colocadas em prática sem nossa luta.
Muito menos, sem que nós ocupemos espaços de poder que nos permitam falar sobre isso e promover ações, como lideranças de movimentos sindical e sociais, cargos legislativos e do Executivo, entre outras posições de resistência e decisão.
A AFUSE cumpre sua parte ao ter a primeira mulher negra para defender uma categoria majoritariamente feminina e preta, mas sabemos que uma só andorinha não faz verão. Que nosso exemplo se espalhe e encoraje outras negras a ingressarem nessa luta sabendo que serão ouvidas e também terão caminhos para representação.
Não queremos apenas ocupar simbolicamente os espaços, mas também estar à frente da organização deles. Que neste Dia da Consciência Negra, quando lembramos os 330 anos da morte de Zumbi dos Palmares, 331 de Dandara dos Palmares, e os 30 anos da grande Marcha Zumbi dos Palmares, em Brasília, realinhemos nossas forças para estar onde merecemos.
Contra o racismo, o preconceito, o machismo e o conservadorismo que nos quer na cozinha e nos elevadores de serviço, jamais na sala, seja a da casa, seja a de aula, vamos à luta ocupar as ruas neste 20 de novembro, no dia 25, durante a Macha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, e durante todo o ano.
Unidas e unidos contra a opressão, o silenciamento e a discriminação.